65556679_2118112128482551_3481112342053531884_n

o mundo estilhaça
de estrelas e bêbedos

cinco poemas de calí boreaz.

do livro “outono azul a sul”.

a saudade nos desafia, nos impacienta, nos inquieta – mas quando é que alguém poderia pensar a sério em extraí-la da sua vida?

a poesia de calí boreaz redonda em torno desse tema. lembrar do país natal, reconhecer-se num novo lugar, aparentar-se líquida como o oceano. é sobre uma saudade quase instantânea, um sentimento de que esse momento agora – eu e você aqui, esse apuro, o mar diante de nós – vai ser lembrado docemente no futuro.

estes registros selecionados são feitos de momentos para não esquecer.

outono azul a sul

outono azul a sul
calí boreaz
com ilustrações de edgar duvivier
e antónio martins-ferreira
editora urutau
142 páginas.

entre

entre observar o mundo e viver no mundo
há um frágil quase etéreo espaço,
assim mais ou menos quanto cabe na ausência de um abraço

#dia23
faltou motivo

esta noite quis te falar
mas não havendo motivo ingênuo
não falei
e talvez por isso mesmo
tenha falado
de um jeito menos 2018
aqui, em degredo,
colo meus olhos aos de outro tempo
e vejo-te suave
com pingos de sol
e olhos tristes apesar do sorriso
que me devassa
olhos tristes que não vêm da tristeza
mas da insuficiência de te saberes
bela
da descrença de te quereres
ilesa
estou convencida disso
assim como estou convencida
de que esta madrugada é azul-carmim
e toca Cartola no meu youtube
um pouco mais alto do que deveria
para os padrões do Jardim Botânico
e, olha: estar convencida
de algo é grande coisa,
eu que, assim, nem convencida estou
de que viver é a coisa certa
a se fazer
neste mundo

#dia24
feliz aniversário

esta noite a Terra
demorará um segundo a mais
a dar a volta sobre si mesma
o pulmão da Terra
entregará um grama mais
de ar aos terráqueos
a água da Terra
adentrará em um milímetro
a incandescência
as folhas geológicas todas
causarão tremores
imperceptíveis
os genomas humanos
nascerão noutra ordem
durante toda a madrugada
e muito mais gente que o normal
estará escutando Beethoven
ou Caetano
com aroma de café
ou chá de laranjeira
com os pés virados para as estrelas
em redes floridas
e eu só botei esse batom vermelho
pra marcar de beijo a lua
pra você ver
onde quer que você esteja

#dia25
falha geográfica

esta noite não sei
o mundo, arrepiado,
está entrando aos trambolhões
todo pela rachadura que se abriu
à latitude -22.9 com longitude
-43.1 ali mais coisa
menos coisa na altura
do posto 5 mais concretamente
a 20 passos da linha do Atlântico
exatamente no ponto em que
é possível caber entre braços
toda a paisagem indecente
quântico interstício
de tudo
que é íntimo e ausente e eu não sei
o mundo, arrepiado, está
todo indo por ali abaixo
num vício biográfico
danado
o pior minha gente
é que a fenda tem luz própria
é toda colorida de açaí e acerola
e tem um barulhinho
lá no fundo
espera aí
é uma caixa de fósforo
tem alguém batendo nela
a cadência nova do samba
o mundo tá doido
o mundo ta doído
quer chegar junto
chega mais cabe mais
e não há controle
não há respeito
é trambolhão mesmo
o mundo está desaparecendo
aos poucos esta noite
a rachadura fechará
pontualmente antes que eu chegue
para ligar o dia
e avaliar os danos
é assim desde que a geografia nos falhou

ps: este domingo
passa lá no posto 5
para eu te ver passar
vou estar lá na areia
a 20 passos da linha do
atlântico
com os pés firmes
no magma azul
pulmões expandidos para a avalanche
quântica de oxigênio
de binóculos
ou telescópio
só para te ver passar
no equilibrismo óptico
de te encontrar entre milhões
de meteoros secundários
e depois, o mundo
o calendário o mar os luzeiros
talvez se entendam
vou estar lá na areia
para te ver passar

(última) confissão

além disso, não espere de mim
o abdômen definido
a rima perfeita
o post diário
o aquático sorriso
do conselho sensato
espere areia
movediça – isso
nitrogênio contaminado
excesso de sal
vertigem multívola
imoral – me espere imoral
oblíqua na míngua
de ser outono onde
novembro é primavera
veja bem, não espere
portos com mercadorias de seda
minha casa é decimal
sou depois da vírgula
ah, não me espere europeia
nem sul-americana
nem mesmo lunática
antes espere qualquer sinal
vindo da folha caindo no abismo
cromática insana poluente

e me recolha
com a pá do lixo

CALI

calí boreaz
nasceu no outono, em portugal. estudou direito em lisboa, língua e literatura romena em bucareste e o ofício do teatro no rio de janeiro – onde vive.

como escritora, publicou “outono azul a sul” (poesia) e “islandeses” (conto). também é tradutora e artista visual. 

acompanhe seu trabalho em seu site pessoal e no instagram.

seis 7
©2020